sábado, 10 de julho de 2010

"Pergunta pro Lubisco"

Texto retirado do 32º Boletim da Associação Profissional dos Técnicos Cinematográficos do Rio Grande do Sul, de Agosto de 1993:


Com que negativo Rauol Coutard filmou "Acossado"? A que velocidade se deve rodar a câmara para filmar direto da tevê? Como se calcula a luminosidade de uma lente? Durante mais de vinte anos, sempre que algum cineasta gaúcho enfrentava este tipo de dúvida, a solução era a mesma: "pergunta pro Lubisco". Não só pelo seu inegável conhecimento técnico, mas principalmente pela sua facilidade de comunicação, pela sua admirável paciência, pela sua vontade de ensinar. Para pelo menos duas gerações, Lubisco foi um mestre, daqueles que não se esquece tão fácil.

Um fotógrafo raro, que filmava com os dois olhos abertos, o que lhe permitia perceber o que estava acontecendo fora do quadro e antecipar qualquer correção necessária. Um diretor de fotografia sempre ligado no cinema gaúcho e às nossas necessidades de improvisação, capaz de inventar travellings sem carrinho, fazer complicadas panorâmicas sem uma cabeça de tripé adequada, ou de iluminar um plano aberto num supermercado com perfeição e com apenas 2500 Watts.

Um trabalhador consciente, que fazia curtas até de graça mas que sempre se recusou a rodar um longa sem receber o piso salarial do sindicato. Que se retirou da Assembléia de Fundação da APTC por não concordar com um artigo do estatuto - e que, convicto de suas opiniões, nunca aceitou associar-se à entidade.

Esse boletim é dedicado a Norberto Lubisco, à sua memória e presença, ao seu trabalho e coerência. A grande prova de que sua partida foi dolorosamente prematura é o fato de que Gramado lhe prestará uma homenagem produzida por ele mesmo: três dos oito filmes gaúchos que concorrem no festival têm a sua luz.

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