Em Dezembro de 2009, a Casa de Cultura fechou a sala de cinema Norberto Lubisco para reformas. Isso pegou todos os frequentadores do espaço e as pessoas que zelam pela cultura porto-alegrense de surpresa, justamente pelo fato de não haver aviso algum sobre este fechamento temporário. Ou seja: da noite para o dia a sala estava fechada sem nenhuma explicação, não exibia mais filmes, e mantinha suas portas trancadas.
Um movimento em prol da reabertura da sala foi iniciado pelo radialista Marcelo Noah, e se espalhou por diversos sites e blogs, dentre eles o da Mariana Messias que escreveu este baita texto, e o do meu estimado amigo e crítico de cinema, Adriano de Oliveira. A repercussão disto tudo foi muito grande. Explicações foram dadas, promessas foram feitas, e depois de 4 meses de espera, a sala reabriu com um baita ciclo de cinema italiano.
O fato da sala ter fechado as portas, mesmo que temporariamente, causou um certo desconforto com a população. Não apenas em relação à sala, mas foi colocado em questão a atual Secretaria de Cultura do Estado (na época era a Mônica Leal, atualmente é o ex diretor do Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Cézar Prestes) e os caminhos que a cultura porto-alegrense estava seguindo.
Como disse o próprio Noah na reabertura da sala, o que aconteceu talvez tenha sido melhor do que a gente imagina. Foi possível expressar um sentimento de carinho pelos espaços culturais, questionar e debater sobre o governo, e fazer com que filmes clássicos voltassem a ser exibidos na sala Norberto Lubisco.
Norberto Lubisco
(...) um artista extremamente original que foi o primeiro dos “pintores da luz” de sua geração no cinema do Rio Grande do Sul. - Tuio Becker
quarta-feira, 21 de julho de 2010
terça-feira, 13 de julho de 2010
O Cinema Gaúcho perde um de seus melhores Fotógrafos
Texto de Marco Aurélio Barcellos publicado originalmente no jornal "RS Informação e Análise”, em agosto de 1993.
Foi na segunda-feira passada, dia 23, na Sala Eduarto Hirtz, na Casa de Cultura Mário Quintana. Em duas sessões, uma platéia que lotou a sala não cansou de aplaudir os filmes que Norberto Lubisco fotografou ao longo de seus 25 anos de carreira. Conheci Norberto quando ele tinha 17 anos, e durante todos esses anos, às vezes sem vê-lo durante muito tempo, acompanhei o seu trabalho sempre realizado com muito talento e grande modéstia.
Embora não falasse muito, ele tinha uma personalidade forte e suas opiniões eram mais ou menos definitivas sobre as coisas, mas não me lembro uma só vez, de um gesto seu de vaidade, de presunção ou de auto-elogio em relação ao que fazia. E ele era dos melhores. No Rio ou em São Paulo teria se consagrado como diretor de fotografia. Mas como muitos teimosos e abnegados, preferiu ficar por aqui, onde sabedoria, sensibilidade e competência ao plano artístico, raramente são valorizados como convém.
Mas não morreu incógnito. Ao contrário, morreu executando o ofício que amou e dignificou. E teve seu trabalho reconhecido pelos prêmios que conquistou em Gramado e em outros festivais. E pelo que se viu na tela na segunda-feira passada, mesmo através de filmes amarelecidos pela passagem irredutível do tempo, é um profissional que vai deixar saudades.
Muito magro e desde adolescente usando óculos de pesadas lentes, ele jamais se deixou vergar pelos ventos fortes das dificuldades, e enxergou muito além do que enxergam muitos de nós cuja visão é perfeita. Um perfeccionista que estabeleceu com a fotografia do cinema uma relação afetiva indestrutível. Um batalhador, um talento que se foi. Quem não o conhece direito, que assista ao seu último trabalho, o premonitório “Presságio”, Kikito de melhor fotografia de curtas no recente Festival de Gramado. Parabéns, Norberto. Foi o último e o mais belo dos teus trabalhos no cinema. E nós, que amamos o cinema, agradecemos.
Foi na segunda-feira passada, dia 23, na Sala Eduarto Hirtz, na Casa de Cultura Mário Quintana. Em duas sessões, uma platéia que lotou a sala não cansou de aplaudir os filmes que Norberto Lubisco fotografou ao longo de seus 25 anos de carreira. Conheci Norberto quando ele tinha 17 anos, e durante todos esses anos, às vezes sem vê-lo durante muito tempo, acompanhei o seu trabalho sempre realizado com muito talento e grande modéstia.
Embora não falasse muito, ele tinha uma personalidade forte e suas opiniões eram mais ou menos definitivas sobre as coisas, mas não me lembro uma só vez, de um gesto seu de vaidade, de presunção ou de auto-elogio em relação ao que fazia. E ele era dos melhores. No Rio ou em São Paulo teria se consagrado como diretor de fotografia. Mas como muitos teimosos e abnegados, preferiu ficar por aqui, onde sabedoria, sensibilidade e competência ao plano artístico, raramente são valorizados como convém.
Mas não morreu incógnito. Ao contrário, morreu executando o ofício que amou e dignificou. E teve seu trabalho reconhecido pelos prêmios que conquistou em Gramado e em outros festivais. E pelo que se viu na tela na segunda-feira passada, mesmo através de filmes amarelecidos pela passagem irredutível do tempo, é um profissional que vai deixar saudades.
Muito magro e desde adolescente usando óculos de pesadas lentes, ele jamais se deixou vergar pelos ventos fortes das dificuldades, e enxergou muito além do que enxergam muitos de nós cuja visão é perfeita. Um perfeccionista que estabeleceu com a fotografia do cinema uma relação afetiva indestrutível. Um batalhador, um talento que se foi. Quem não o conhece direito, que assista ao seu último trabalho, o premonitório “Presságio”, Kikito de melhor fotografia de curtas no recente Festival de Gramado. Parabéns, Norberto. Foi o último e o mais belo dos teus trabalhos no cinema. E nós, que amamos o cinema, agradecemos.
sábado, 10 de julho de 2010
Fotos 2
Acredito que as fotos sejam do curta: "As Colônias Italianas no Rio Grande do Sul" de 1975.

Norberto Lubisco e Alpheu Ney Godinho.

Norberto Lubisco, Sérgio Silva e Antônio Carlos Textor.

Norberto Lubisco e Antônio Carlos Textor.

Norberto Lubisco e Antônio Carlos Textor

Norberto Lubisco e Antônio Carlos Textor.

Norberto Lubisco, Alpheu Ney Godinho e Antônio Carlos Textor.

Norberto Lubisco e Antônio Carlos Textor.

Norberto Lubisco e Antônio Carlos Textor.

Norberto Lubisco e Alpheu Ney Godinho.

Norberto Lubisco, Sérgio Silva e Antônio Carlos Textor.

Norberto Lubisco e Antônio Carlos Textor.

Norberto Lubisco e Antônio Carlos Textor

Norberto Lubisco e Antônio Carlos Textor.

Norberto Lubisco, Alpheu Ney Godinho e Antônio Carlos Textor.

Norberto Lubisco e Antônio Carlos Textor.

Norberto Lubisco e Antônio Carlos Textor.
"Pergunta pro Lubisco"
Texto retirado do 32º Boletim da Associação Profissional dos Técnicos Cinematográficos do Rio Grande do Sul, de Agosto de 1993:
Com que negativo Rauol Coutard filmou "Acossado"? A que velocidade se deve rodar a câmara para filmar direto da tevê? Como se calcula a luminosidade de uma lente? Durante mais de vinte anos, sempre que algum cineasta gaúcho enfrentava este tipo de dúvida, a solução era a mesma: "pergunta pro Lubisco". Não só pelo seu inegável conhecimento técnico, mas principalmente pela sua facilidade de comunicação, pela sua admirável paciência, pela sua vontade de ensinar. Para pelo menos duas gerações, Lubisco foi um mestre, daqueles que não se esquece tão fácil.
Um fotógrafo raro, que filmava com os dois olhos abertos, o que lhe permitia perceber o que estava acontecendo fora do quadro e antecipar qualquer correção necessária. Um diretor de fotografia sempre ligado no cinema gaúcho e às nossas necessidades de improvisação, capaz de inventar travellings sem carrinho, fazer complicadas panorâmicas sem uma cabeça de tripé adequada, ou de iluminar um plano aberto num supermercado com perfeição e com apenas 2500 Watts.
Um trabalhador consciente, que fazia curtas até de graça mas que sempre se recusou a rodar um longa sem receber o piso salarial do sindicato. Que se retirou da Assembléia de Fundação da APTC por não concordar com um artigo do estatuto - e que, convicto de suas opiniões, nunca aceitou associar-se à entidade.
Esse boletim é dedicado a Norberto Lubisco, à sua memória e presença, ao seu trabalho e coerência. A grande prova de que sua partida foi dolorosamente prematura é o fato de que Gramado lhe prestará uma homenagem produzida por ele mesmo: três dos oito filmes gaúchos que concorrem no festival têm a sua luz.
Com que negativo Rauol Coutard filmou "Acossado"? A que velocidade se deve rodar a câmara para filmar direto da tevê? Como se calcula a luminosidade de uma lente? Durante mais de vinte anos, sempre que algum cineasta gaúcho enfrentava este tipo de dúvida, a solução era a mesma: "pergunta pro Lubisco". Não só pelo seu inegável conhecimento técnico, mas principalmente pela sua facilidade de comunicação, pela sua admirável paciência, pela sua vontade de ensinar. Para pelo menos duas gerações, Lubisco foi um mestre, daqueles que não se esquece tão fácil.
Um fotógrafo raro, que filmava com os dois olhos abertos, o que lhe permitia perceber o que estava acontecendo fora do quadro e antecipar qualquer correção necessária. Um diretor de fotografia sempre ligado no cinema gaúcho e às nossas necessidades de improvisação, capaz de inventar travellings sem carrinho, fazer complicadas panorâmicas sem uma cabeça de tripé adequada, ou de iluminar um plano aberto num supermercado com perfeição e com apenas 2500 Watts.
Um trabalhador consciente, que fazia curtas até de graça mas que sempre se recusou a rodar um longa sem receber o piso salarial do sindicato. Que se retirou da Assembléia de Fundação da APTC por não concordar com um artigo do estatuto - e que, convicto de suas opiniões, nunca aceitou associar-se à entidade.
Esse boletim é dedicado a Norberto Lubisco, à sua memória e presença, ao seu trabalho e coerência. A grande prova de que sua partida foi dolorosamente prematura é o fato de que Gramado lhe prestará uma homenagem produzida por ele mesmo: três dos oito filmes gaúchos que concorrem no festival têm a sua luz.
Trajetória

REGISTROS PROFISSIONAIS:
Nº 225 Como Diretor de Cinema DRT/RS.
Nº 036 Como Diretor de Fotografia, Montador e Roteirista DRT/RS.
CURSOS:
1963 - Curso de Cultura Cinematográfica de Extensão Universitária, ministrado pelo Centro de Estudos Audio-Visuais da PUC/RS.
1964 - Curso de Cinema Educativo de Extensão Universitária, ministrado pelo Professor Chiarella Heider, na PUC/RS.
1964 - Curso de Fotografia, ministrado pelo Departamento Universitário da Associação Rio-Grandense de Imprensa.
1965 - Curso Superior de Cinema, Ministrado pelo Professor Remy Tessoneau, Diretor Geral do Institut Des Hautes Études Cinematografiques de Paris - IDEHC, na PUC/RS.
PROFESSOR:
1968 - Lecionou Roteiro e Fotografia, no curso ministrado pela FGC/RS.
1972 - Vice-Presidente do Centro de Estudos Cinematográficos da PUC/RS.
1973 - Presidente do Centro de Estudos Cinematográficos da PUC/RS.
1978 - Lecionou Fotografia, no curso: "Cinema, uma Alternativa Audiovisual como Recurso Pedagógico" ministrado pela Pró-Reitoria de Extensão Universitária da UFRGS.
FILMOGRAFIA:
1965 - "A última Estrela" - Diretor de Fotografia e Câmera.
1966 - "O Gesto Essencial" - Diretor de Fotografia e Câmera - Premiado no II Festival JB/MESBLA.
1969 - "Bios" - Diretor de Fotografia e Câmera.
"O Môsca" - Diretor de Fotografia e Câmera.
"Hoje, O Susto Eletrônico" - Diretor de Fotografia e Câmera - Premiado no V Festival JB/MESBLA.
1970 - "Raizes" - Diretor de Fotografia e Câmera.
"As Mãos" - Diretor de Fotografia e Câmera.
"A Conquista de um Espaço" - Diretor de Fotografia e Câmera.
"A Cidade e o Tempo" - Diretor de Fotografia e Câmera - Prêmio Classificação Especial do INC.
1971 - "As Carpas" - Direção Fotografia e Câmera.
"A Revelação de uma Cabeça" - Diretor de Fotografia e Câmera.
" Scorpio" - Diretor de Fotografia e Câmera.
" Não tem Sentido" - Diretor de Fotografia e Câmera.
1973 - "O Grupo" - Diretor de Fotografia e Câmera.
1974 - "A Colonização Alemã no Rio Grande do Sul" - Diretor de Fotografia e Câmera.
1975 - "As Colônias Italianas no Rio Grande do Sul" - Diretor de Fotografia e Câmera - Prêmio IV Festival de Cinema de Gramado.
"A Senhora do Rio" - Diretor de Fotografia e Câmera - Prêmio Classificação Especial INC/ Prêmio IV Festival de Cinema de Gramado.
1976 - "Comunicação e Expressão" - Produção Especial para a TV. Diretor de Fotografia e Câmera.
1977 - "Estudos Rio Grandenses" - 25 Programas em Série para TV Produzidos pelo MEC. Diretor de Fotografia e Câmera.
1979 "Bento, Farrapo, Farroupilha" - Diretor de Fotografia e Câmera - Prêmio Classificação Especial INC.
Na década de 70, prestou serviços como autônomo para as seguintes produtoras, na realização de Audio-Visuais, Video-Tapes, Filmes Documentários e Comerciais de Cinema e Televisão:
- Cinimagem Produções Cinematográficas LTDA - POA/RS
- Tecnicine LTDA - POA/RS
- SIGNOVO - POA/RS
- Tupiniquim Filmes - POA/RS
- Pem Produções Cinematográficas - POA/RS
- Jano Comunicações LTDA - POA/RS
- Mikson Tecnologia de Comunicações LTDS - São Paulo/SP
- Produções Becheleni LTDA - Belo Horizonte/MG
- Lowe Cinematografica - Buenos Aires/ARG
1982 - "No Amor" - Diretor de Fotografia e Câmera - Premiado no X Festival de Cinema Brasileiro de Gramado.
1983 - "Interlúdio" - Diretor de Fotografia e Câmera - Prêmio Classificação Especial INC.
"Urbano" - Diretor de Fotografia e Câmera - Premiado no XI Festival de Cinema de Gramado.
1984 - "Grafite" - Diretor de Fotografia e Câmera - Premiado no XII Festival de Cinema de Gramado.
1984 - Recebeu o Destaque Profissional do Ano da ARP, na categoria Fotógrafo, no 11º Salão da Propaganda Gaúcha.
1985 - "Madame Cartô" - Diretor de Fotografia e Câmera - Premiado no XIII Festival de Cinema de Gramado.
"Ano Novo, Vida Nova" - Diretor de Fotografia e Câmera - Premiado no XIII Festival de Cinema de Gramado.
"Carrossel" - Diretor de Fotografia e Câmera - Premiado no XIII Festival de Cinema de Gramado.
1987 - "Crônica de um Rio" - Diretor de Fotografia e Câmera.
1988 - "Um Distante Tempo de Amar" - Diretor de Fotografia e Câmera.
1989 - "Heimweh - Nostalgia" - Diretor de Fotografia e Câmera - Menção Especial no Festival de Brasília de 1990 e no IX Festival Cinematográfico Internacional de Montevideo.
"Festa de Casamento" - Diretor de Fotografia e Câmera - Premiado no XVIII Festival de Cinema Brasileiro de Gramado, Premiado no Festival de Brasília 1990, Menção Especial no IX Festival de Cinema Internacional de Montevideo.
1992 - "As Flores do Mal" - Diretor de Fotografia e Câmera.
"Amigo Lupi" - Diretor de Fotografia e Câmera - Premiado no XXI Festival de Cinema de Gramado.
1993 - "O Zeppelin Passou por Aqui" - Diretor de Fotografia e Câmera - Premiado no XXI Festival de Cinema de Gramado.
"Presságio" - Diretor de Fotografia e Câmera - Premiado no XXI Festival de Cinema de Gramado.
Pintor da Luz
Texto de Tuio Becker para a Zero Hora de 4 de setembro de 1993.
Eles são conhecidos como “os pintores da luz”. Sem eles um filme não existe. Pode-se realizar um filme sem roteiro, sem atores, sem música ou som, até mesmo sem produção. Só o fotógrafo é indispensável, pois através das imagens em movimento é que o filme ganha existência. Com a morte de Norberto Lubisco no último dia 2 de agosto (1993), aos 47 anos, o Rio Grande do Sul perdeu um de seus mais estimados e experientes “pintores da luz”, cuja participação no movimento cinematográfico gaúcho se estendeu por quase três décadas.
Retraçar a trajetória cinematográfica de Norberto Lubisco é difícil: sua participação esteve quase sempre ligada aos filmes rodados de forma independente e nas mais diversas bitolas, com grande ênfase para o 16mm, formato em que fotografou o único longa-metragem de sua carreira, Heimweh/Nostalgia (1991), de Sérgio Silva e do autor deste texto. “O Norberto sempre ajudava muita gente, resolvia os problemas, orientava se a cena ia ou não dar”, lembra Luis Carlos Pighini, para quem Lubisco fotografou em 8mm Os Bondes (1968). Herdeiro do espírito de uma época, do esforço coletivo em torno de uma idéia, ele estreou como assistente de fotografia de Antonio Carlos Textor na segunda versão (inacabada) de O Marginal, de Alpheu Ney Godinho.
Naquela época, Porto Alegre era diferente. Em 1968 a cidade tinha mais salas de exibição, clubes de cinema, grupos de estudo e jornais para divulgar e formar a cultura cinematográfica. Em 1966 Teixeirinha estrelara seu primeiro longa-metragem, Coração de Luto, de Eduardo Llorente, reacendendo a possibilidade de surgimento de um novo ciclo regional. Mas a produção de filmes era pequena, os curtas-metragens se resumiam a alguns 16mm feitos por aficionados ligados ao Foto-Cine Clube Gaúcho ou a grupos como o Centro de Estudos e Divulgação Cinematográfica (Cedic), da UFRGS, e o Centro de Estudos Cinematográficos (Cecin), da PUC.
O Cecin se dedicava a analisar filmes que tanto podiam ser obras clássicas menos conhecidas como produções do recente cinema novo brasileiro. Nessas reuniões eventualmente era exibido algum curta-metragem gaúcho, como A Última Estrela, de Antonio Carlos Textor (1966). E surgiam idéias que muitas vezes se transformavam em filmes. Integrante do Cecin, o ex-estudante de Física Norberto Lubisco fotografou, em 1967, A Conquista de um Espaço, de Luiz Maciorowski. No curta, um homem tenta montar uma cadeira preguiçosa no canteiro central da Avenida Farrapos. “Era uma reflexão simbólica sobre o estado de coisas da época”, dizia Lubisco.
Em 1969 o ato de fazer cinema foi atiçado em Porto Alegre pela possibilidade de inscrever um filme curto e pobre no 5º Festival de Cinema Amador do Jornal do Brasil. Sob o tema Um desafio em 90 segundos foram realizados seis curtas-metragens que marcaram presença no evento: Farsa, de Juarez Fonseca e Joaquim Peroni, Uma Vida em 90 segundos, de Ilias Evremidis, Antikatus, de Rubens Bender, todos mudos, Bom Dia, Você está Mudando, de Antonio Carlos Textor, O Mosca, de Nelson Canabarro, e Hoje, o Susto Eletrônico, de AlpheuNey Godinho, sonoros. Lubisco fotografou os dois últimos. Godinho, cujo filme foi premiado no festival, recorda que “já na época, os filmes do sul eram os estranhos no ninho na mostra de cinema Paissandu, templo da intelectualidade cinematográfica carioca”.
Assim como Sérgio Silva, Textor e Godinho, de quem fotografou grande parte dos filmes, Lubisco seguiu em atividade nos anos 70 para, nos 80, colocar sua assinatura nas imagens do curta No Amor, de Nelson Nadotti (1981), que marcou a ascensão do cinema gaúcho, de um período em que a chamada bitola nanica do Super-8 dominou a produção local, para o florescimento de um ciclo de longas-metragens, semelhante ao que marcou a primeira metade dos anos 70. Lubisco iluminou com fortes contrastes de preto e branco esse pequeno filme que, de um certo modo, se colocava como o manifesto de maioridade de toda uma equipe egressa do Super-8. As sóbrias imagens de Lubisco davam um equilíbrio clássico a irreverência da narrativa.
Na década de 80 o Festival de Gramado serviu de vitrina para a produção do Rio Grande do Sul. Por três vezes, Lubisco levou o prêmio de melhor direção de fotografia instituído pela Assembléia Legislativa. Seja com os tons sombrios de Urbano, de Antonio Carlos Textor, premiado em 1983, ou com as cores delirantes de Madame Cartô, de Nadotti, Carrosel, de Textor e Ano Novo, Vida Nova, de Godinho, os premiados de 1985, a arte de Lubisco se destacou. No festival deste ano ele recebeu um prêmio póstumo pela fotografia de Presságio, de Renato Falcão. Poucas vezes, como neste curta, o clima crepuscular e noturno de Porto Alegre foi fotografado com tanta maestria, ressaltando a adequação do cenário arquitetônico do passado com o contexto dramático de uma história ancorada no presente.
Lutando com as deficiências técnicas do mercado, Lubisco aliava, em sua atividade, um senso prático tão afinado quanto sua sensibilidade e habilidade para compreender as intenções do diretor com quem trabalhava. Era comum ouvi-lo dizer: “Professor, e como vai ser esta cena?”. Ele se comunicava facilmente por imagens. Do clima opulento de um filme de Luchino Visconti ao despojamento seco e frio de qualquer cineasta alemão, apoiado em sua profunda cultura cinematográfica Lubisco era capaz de reproduzir em imagens as mais desvairadas intenções de qualquer realizador iniciante em busca de um grande efeito visual. Era capaz também de, nos momentos de maior crise, durante uma filmagem, insinuar um toque de otimismo quando ninguém mais da equipe acreditava no projeto.
Das artes a sétimae a mais industrializada, o cinema, corporificado em um filme, é também a mais perecível. Num toma cá dá lá, o celulóide se incendeia, vira esmalte de unhas ou fibra para vassouras, como mostrou Roberto Henkin em seu premiado curta Memória. A memória de um diretor de fotografia sobrevive nas imagens que ele criou para filmes alheios. Ao contrário de tantos colegas gaúchos de ofício, como Antonio Oliveira, Textor, Henkin ou Sério Amon, Lubisco jamais tentou a direção cinematográfica. “Talvez isso tenha se devido ao seu tipo de personalidade, meio caladão”, conjetura Sérgio Silva, para quem Lubisco fotografou Festa de Casamento (1991) e O Zeppelin passou por aqui (1993).
Capaz de iluminar um supermercado com um reduzido parque de luz, como ocorreu em Interlúdio, de Giba Assis Brasil e Carlos Gerbase (1982), ou projetar um carrinho para travellings “com o que se tem em casa”, Lubisco aliou, em sua trajetória, um profundo conhecimento de cinema como cultura e como técnica. Dessa fusão resultou um artista extremamente original que foi o primeiro dos “pintores da luz” de sua geração no cinema do Rio Grande do Sul.
Eles são conhecidos como “os pintores da luz”. Sem eles um filme não existe. Pode-se realizar um filme sem roteiro, sem atores, sem música ou som, até mesmo sem produção. Só o fotógrafo é indispensável, pois através das imagens em movimento é que o filme ganha existência. Com a morte de Norberto Lubisco no último dia 2 de agosto (1993), aos 47 anos, o Rio Grande do Sul perdeu um de seus mais estimados e experientes “pintores da luz”, cuja participação no movimento cinematográfico gaúcho se estendeu por quase três décadas.
Retraçar a trajetória cinematográfica de Norberto Lubisco é difícil: sua participação esteve quase sempre ligada aos filmes rodados de forma independente e nas mais diversas bitolas, com grande ênfase para o 16mm, formato em que fotografou o único longa-metragem de sua carreira, Heimweh/Nostalgia (1991), de Sérgio Silva e do autor deste texto. “O Norberto sempre ajudava muita gente, resolvia os problemas, orientava se a cena ia ou não dar”, lembra Luis Carlos Pighini, para quem Lubisco fotografou em 8mm Os Bondes (1968). Herdeiro do espírito de uma época, do esforço coletivo em torno de uma idéia, ele estreou como assistente de fotografia de Antonio Carlos Textor na segunda versão (inacabada) de O Marginal, de Alpheu Ney Godinho.
Naquela época, Porto Alegre era diferente. Em 1968 a cidade tinha mais salas de exibição, clubes de cinema, grupos de estudo e jornais para divulgar e formar a cultura cinematográfica. Em 1966 Teixeirinha estrelara seu primeiro longa-metragem, Coração de Luto, de Eduardo Llorente, reacendendo a possibilidade de surgimento de um novo ciclo regional. Mas a produção de filmes era pequena, os curtas-metragens se resumiam a alguns 16mm feitos por aficionados ligados ao Foto-Cine Clube Gaúcho ou a grupos como o Centro de Estudos e Divulgação Cinematográfica (Cedic), da UFRGS, e o Centro de Estudos Cinematográficos (Cecin), da PUC.
O Cecin se dedicava a analisar filmes que tanto podiam ser obras clássicas menos conhecidas como produções do recente cinema novo brasileiro. Nessas reuniões eventualmente era exibido algum curta-metragem gaúcho, como A Última Estrela, de Antonio Carlos Textor (1966). E surgiam idéias que muitas vezes se transformavam em filmes. Integrante do Cecin, o ex-estudante de Física Norberto Lubisco fotografou, em 1967, A Conquista de um Espaço, de Luiz Maciorowski. No curta, um homem tenta montar uma cadeira preguiçosa no canteiro central da Avenida Farrapos. “Era uma reflexão simbólica sobre o estado de coisas da época”, dizia Lubisco.
Em 1969 o ato de fazer cinema foi atiçado em Porto Alegre pela possibilidade de inscrever um filme curto e pobre no 5º Festival de Cinema Amador do Jornal do Brasil. Sob o tema Um desafio em 90 segundos foram realizados seis curtas-metragens que marcaram presença no evento: Farsa, de Juarez Fonseca e Joaquim Peroni, Uma Vida em 90 segundos, de Ilias Evremidis, Antikatus, de Rubens Bender, todos mudos, Bom Dia, Você está Mudando, de Antonio Carlos Textor, O Mosca, de Nelson Canabarro, e Hoje, o Susto Eletrônico, de AlpheuNey Godinho, sonoros. Lubisco fotografou os dois últimos. Godinho, cujo filme foi premiado no festival, recorda que “já na época, os filmes do sul eram os estranhos no ninho na mostra de cinema Paissandu, templo da intelectualidade cinematográfica carioca”.
Assim como Sérgio Silva, Textor e Godinho, de quem fotografou grande parte dos filmes, Lubisco seguiu em atividade nos anos 70 para, nos 80, colocar sua assinatura nas imagens do curta No Amor, de Nelson Nadotti (1981), que marcou a ascensão do cinema gaúcho, de um período em que a chamada bitola nanica do Super-8 dominou a produção local, para o florescimento de um ciclo de longas-metragens, semelhante ao que marcou a primeira metade dos anos 70. Lubisco iluminou com fortes contrastes de preto e branco esse pequeno filme que, de um certo modo, se colocava como o manifesto de maioridade de toda uma equipe egressa do Super-8. As sóbrias imagens de Lubisco davam um equilíbrio clássico a irreverência da narrativa.
Na década de 80 o Festival de Gramado serviu de vitrina para a produção do Rio Grande do Sul. Por três vezes, Lubisco levou o prêmio de melhor direção de fotografia instituído pela Assembléia Legislativa. Seja com os tons sombrios de Urbano, de Antonio Carlos Textor, premiado em 1983, ou com as cores delirantes de Madame Cartô, de Nadotti, Carrosel, de Textor e Ano Novo, Vida Nova, de Godinho, os premiados de 1985, a arte de Lubisco se destacou. No festival deste ano ele recebeu um prêmio póstumo pela fotografia de Presságio, de Renato Falcão. Poucas vezes, como neste curta, o clima crepuscular e noturno de Porto Alegre foi fotografado com tanta maestria, ressaltando a adequação do cenário arquitetônico do passado com o contexto dramático de uma história ancorada no presente.
Lutando com as deficiências técnicas do mercado, Lubisco aliava, em sua atividade, um senso prático tão afinado quanto sua sensibilidade e habilidade para compreender as intenções do diretor com quem trabalhava. Era comum ouvi-lo dizer: “Professor, e como vai ser esta cena?”. Ele se comunicava facilmente por imagens. Do clima opulento de um filme de Luchino Visconti ao despojamento seco e frio de qualquer cineasta alemão, apoiado em sua profunda cultura cinematográfica Lubisco era capaz de reproduzir em imagens as mais desvairadas intenções de qualquer realizador iniciante em busca de um grande efeito visual. Era capaz também de, nos momentos de maior crise, durante uma filmagem, insinuar um toque de otimismo quando ninguém mais da equipe acreditava no projeto.
Das artes a sétimae a mais industrializada, o cinema, corporificado em um filme, é também a mais perecível. Num toma cá dá lá, o celulóide se incendeia, vira esmalte de unhas ou fibra para vassouras, como mostrou Roberto Henkin em seu premiado curta Memória. A memória de um diretor de fotografia sobrevive nas imagens que ele criou para filmes alheios. Ao contrário de tantos colegas gaúchos de ofício, como Antonio Oliveira, Textor, Henkin ou Sério Amon, Lubisco jamais tentou a direção cinematográfica. “Talvez isso tenha se devido ao seu tipo de personalidade, meio caladão”, conjetura Sérgio Silva, para quem Lubisco fotografou Festa de Casamento (1991) e O Zeppelin passou por aqui (1993).
Capaz de iluminar um supermercado com um reduzido parque de luz, como ocorreu em Interlúdio, de Giba Assis Brasil e Carlos Gerbase (1982), ou projetar um carrinho para travellings “com o que se tem em casa”, Lubisco aliou, em sua trajetória, um profundo conhecimento de cinema como cultura e como técnica. Dessa fusão resultou um artista extremamente original que foi o primeiro dos “pintores da luz” de sua geração no cinema do Rio Grande do Sul.
sexta-feira, 9 de julho de 2010
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